Crónicas Da Serra, De Irene Lisboa
28 de Outubro, 2026 | 21H30 - 01H00
Castelo Branco
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“Há que ter espírito livre, que o ter dado ou deixado à pureza ou à constância das sensações físicas, predominantemente físicas, para acharmos a interpretação verbal que lhe convenha.” Às mulheres e aos homens que desde sempre se confrontaram, e ainda se confrontem, com as agruras e as dádivas monumentais da Serra. Desconfiados, ressentidos, zangados, manhosos, ruins e lutadores, que não deixam passar as pequenas traições do dia-a-dia, que viram desavenças sérias. Ao meu avô Guerra, avô materno, que deu o salto para Lisboa e abalou para França e em Paris se salvou de uma emboscada noturna em rua escura e mal frequentada – puxando de uma navalha, não sei se “uma cochila espanhola, zás, zás, zás!”. Ele orgulhava-se dessa história como se fosse D’Artagnan. Regressou depressa para inferneziar a família. À prima que me criou e trinta anos depois do salto do seu tio, viajou de comboio para Paris (1967). Sem saber ler nem escrever a língua que a esperava, ao encontro das irmãs e dos irmãos, meus primos beirões. Ainda lá está hoje, aos noventa e tantos anos, e quando fala, fala na sua língua dos Trinta ali à Guarda, apesar de passadas duas décadas em Lisboa e quarenta em Paris. Apesar do passe do fascismo para a democracia, o seu espírito crítico e o desejo de justiça, mais livres e politizados que nunca, são os mesmos destes homens e mulheres das Crónicas. Os assentos que se mamam pela boca e pelos ouvidos à nascença, ouvimo-los nós pela vida fora, mas nem sempre reconhecemos o quanto das identidades lhes resta da casa de partida. Não bastam sotaques quando lhes faltam as raízes. Irene Lisboa (1892 – 1958), que de Lisboa se subtraía para a Serra da Estrela, para usufruir e participar da vida local. Ouvindo a Carma, a Maria, a Violante, a Aidita, a Rita, a Artemisa, a Céu, a Senhora Teresinha, a Ti Maria do Bernardo, a Patrocínia, “alta, grossa, de boas formas, sólida como um belo tronco que não racha”, a Eulália, a triste, e a Teresa de mau génio. “Falam também dos filhos ausentes no Brasil, em Lisboa, na América...” O João, direito, de sacho ao ombro e bota de cano, o Jaleca, o Loriga “figurão vaidoso e querelento”, o Guimarães, o triste; a cadela Ligeira. Quando a língua se desgasta, vamos perdendo identidade(s), ricas diversidades que não se alteram por decreto quando têm raízes fundas. E com a língua desgastada vão-se as memórias e os sujeitos. Tudo atirado para a vala comum do esquecimento, do sem reconhecimento. Não fossem escritores como Irene Lisboa, que nos legou um património riquíssimo, tão vivas e intemporais são as suas narrativas das Crónicas da Serra, com tal nitidez das imagens e da organização da vida comunitária. Achamos que é no teatro que se faz luz sobre as palavras e as gentes. E que é no teatro que se reclamam riquezas reluzentes, personagens que nascem, trabalham e morrem, deixando os rastos de magníficos entrelaçados de gestos e uma vozearia infinita que se constrói em lugares, sem pitoresco nem folclore. Irene Lisboa ouviu com audição fina e cúmplice, indagou por pessoas e histórias de vida, e tão bem descreveu os protagonistas, grafando as suas pronúncias que traziam histórias dentro dos corpos. Desapareceu, como tantos outros escritores, da nossa cultura recorrente. Mas como há urgências por omissão, não nos abstemos de revisitar quem esteve de visita no Lugar da Serra. E talvez não seja, ainda hoje, tão diferente a condição de quem a habita. Vamos lá perceber, dizendo, partilhando. Mulheres-atrizes que ora narram, ora dialogam entre si, alternando as vozes no curso da escrita. Que não nos desdigamos sobre o território inóspito e pobre, entre o céu e a terra, agora e sempre desgastado pelo sol e pela chuva, pelo vento e pelas trovoadas, que nos irá sobreviver. Nuno Carinhas Ficha artística: Autora: Irene Lisboa Dramaturgia e Encenação: Nuno Carinhas Cenografia: Luís Mouro Figurinos: Rafaela Schimitt Interpretação: Benedita Mendes, Carolina Gandarela, Sílvia Morais, Sónia Botelho e Susana Gouveia (vídeo) Assistência aos ensaios: Ellen Rodrigues Desenho de luz: Fernando Sena Assistente de cenografia e Operação de luz e som: William Alves Costureira: Catarina Antunes Cartaz e materiais gráficos: Rafaela Schimitt Produção e comunicação: Celina Gonçalves Assistência de produção e comunicação: Patrícia Morais Vídeo: Ovelha Eléctrica
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